
Integrantes Estrangeiros no K-Pop: Como Eles Entram e o Que Isso Exige
Escolha um grupo de K-Pop ao acaso e há uma boa chance de pelo menos uma pessoa da formação não ter nascido na Coreia. O TWICE tem três integrantes japonesas e uma taiwanesa. A Lisa, do BLACKPINK, é tailandesa. O NewJeans tem duas integrantes criadas na Austrália. O NCT já manteve subunidades inteiras montadas em torno de integrantes que falam chinês.
Isso não é um aceno à diversidade. É uma decisão estrutural que as empresas coreanas começaram a tomar há quase vinte anos e que redesenhou silenciosamente o que é um grupo de K-Pop. Veja como tudo começou, como os integrantes estrangeiros são recrutados, o que o trabalho cobra deles e por que isso não para de reacender a discussão sobre o que significa o "K" de K-Pop.
A Primeira Onda: a 2ª Geração Abre a Porta
A segunda geração (grosso modo, de 2003 a 2011) é quando as empresas coreanas começaram a exportar para valer: primeiro para o Japão, depois para a China e para o Sudeste Asiático. Colocar na formação alguém do mercado-alvo era uma extensão lógica dessa estratégia.
Nichkhun, do 2PM, virou o símbolo dessa virada. Nascido na Califórnia, filho de pais tailandeses e criado majoritariamente na Tailândia, ele foi descoberto por olheiros da JYP Entertainment em um evento de música coreana em Los Angeles e estreou em 2008. Tornou-se um dos tailandeses mais reconhecíveis do entretenimento asiático, e o sucesso dele transformou o "recrutar na Tailândia" em plano repetível, e não em aposta.
A SM Entertainment tocou um experimento paralelo com integrantes de língua chinesa. A Victoria, do f(x), veio da China com formação em dança, e a colega de grupo Amber era uma taiwanesa-americana de Los Angeles. O miss A, da JYP, estreou com duas integrantes chinesas, Fei e Jia. Nessa época, os estrangeiros eram apresentados como pontes para um mercado específico: promover na Coreia e depois usar essas pessoas como âncora lá fora.
Japão: o Fluxo Constante
O Japão é há muito tempo o maior mercado de música do K-Pop fora da Coreia, e integrantes japoneses já são tão comuns que quase ninguém estranha.
O TWICE é o caso mais claro. Momo, Sana e Mina entraram na JYP pelo recrutamento japonês e estrearam pelo reality de sobrevivência Sixteen, em 2015. O TWICE se tornou um dos grupos de maior sucesso no Japão, de qualquer nacionalidade, e o trânsito das três nos dois mercados foi peça central disso.
Yuta, do NCT, natural de Osaka, estreou em 2016 e é um dos integrantes japoneses mais antigos em atividade dentro de um grupo de peso. O LE SSERAFIM estreou em 2022 com duas: Sakura, já bastante conhecida no Japão pelos anos no sistema AKB48, e Kazuha, bailarina de formação clássica recrutada fora do mundo idol.
O caminho da Sakura aponta para um canal específico. O reality de sobrevivência Produce 48, de 2018, misturou de propósito trainees coreanas com integrantes japonesas do AKB48, e o grupo resultante, IZ*ONE, tinha três japonesas. Formatos posteriores, como Girls Planet 999, reaproveitaram essa estrutura de seleção multinacional e geraram grupos como o Kep1er, já com japonesas na formação de estreia.
Tailândia: Poucos Nomes, Impacto Enorme
A Tailândia produz relativamente poucos idols de K-Pop se comparada ao Japão, mas quem chega lá costuma virar gigante.
A Lisa, do BLACKPINK, é o exemplo óbvio: recrutada em uma audição da YG Entertainment em Bangcoc por volta de 2010, mudou-se para a Coreia ainda adolescente para treinar. O BamBam, também tailandês, entrou na JYP por um caminho parecido e estreou com o GOT7 em 2014. O Ten, tailandês formado dentro do sistema da SM, já passou por várias unidades ligadas ao NCT, e a Minnie, do (G)I-DLE, é outra tailandesa em um grupo importante da quarta geração.
Os idols tailandeses rendem muito mais do que o número deles sugere, em parte por causa do público: a Tailândia é um dos mercados de K-Pop mais fortes do Sudeste Asiático, e uma pessoa tailandesa na formação dá tração regional imediata ao grupo. E em parte por causa da própria cultura tailandesa de treino em dança, densa o bastante para entregar candidatos que já chegam com repertório de palco pronto.
Grande China: o Boom e Depois a Complicação
Integrantes chineses e da diáspora chinesa foram uma marca do início dos anos 2010. A SM montou o EXO com uma subunidade voltada ao mandarim, que incluía o Lay, de Hunan, e depois criou o WayV, unidade ligada ao NCT, em torno de integrantes de língua chinesa como Kun, Xiaojun e Hendery. As formações do NCT sediadas na Coreia já tiveram chineses como Renjun e Chenle.
Essa via se complicou na metade dos anos 2010, quando restrições ao conteúdo cultural coreano na China limitaram o que os grupos coreanos podiam fazer comercialmente por lá. Muita gente aponta esse período como a razão de o recrutamento chinês ter desacelerado em relação ao auge, ainda que as empresas nunca tenham abandonado a estratégia. Integrantes de Taiwan ficaram menos expostas a essas restrições, e a Tzuyu, do TWICE, é o caso mais visível.
A Virada Ocidental: Filhos da Diáspora e Seleção Global
A mudança mais recente é em direção a integrantes de países ocidentais, e ela se divide em duas abordagens.
A primeira é o recrutamento na diáspora. O NewJeans estreou em 2022 com a Danielle, nascida na Austrália, filha de pai australiano e mãe coreana, e a Hanni, vietnamita-australiana nascida em Melbourne. Os grupos escalam cada vez mais trainees coreano-americanos, coreano-australianos e coreano-canadenses, que trazem inglês nativo junto com familiaridade cultural.
A segunda é montar o grupo inteiramente fora da Coreia. O KATSEYE, formado no projeto The Debut: Dream Academy, da HYBE com a Geffen Records, e sediado em Los Angeles, reuniu integrantes de países como Estados Unidos, Suíça, Filipinas e Coreia. Ele usa os métodos de treinamento e produção do K-Pop sem ser um grupo domiciliado na Coreia, e é justamente por isso que está no centro do debate sobre a definição do gênero.
Como os Estrangeiros Entram, na Prática
Três caminhos cobrem quase todos os casos.
Tours de audição no exterior
As grandes empresas fazem eventos globais de audição periodicamente em Bangcoc, Tóquio, Taipé, Los Angeles e outras cidades, onde os candidatos apresentam um trecho curto de canto ou dança para os olheiros. As taxas de aprovação são brutais; a audição da Lisa em Bangcoc é sempre descrita como aquela em que ela foi a única selecionada.
Realities de sobrevivência e de audição
Sixteen, Produce 48, Girls Planet 999 e The Debut: Dream Academy foram desenhados para selecionar gente do mundo todo. Para uma trainee estrangeira, esses programas comprimem anos de treino anônimo em alguns meses de exposição na TV: é atalho e teste de pressão ao mesmo tempo.
Diáspora e casting de rua
Alguns estrangeiros são descobertos em estúdios de dança ou eventos fora da Coreia; outros já moram no país. De um jeito ou de outro, as empresas querem cada vez mais candidatos capazes de trabalhar em mais de um idioma desde o primeiro dia.
A Parte Que Ninguém Posta
Ser integrante estrangeiro não é o mesmo trabalho com outro passaporte.
O idioma vem primeiro. Espera-se que os trainees cheguem a um coreano conversacional antes da estreia, porque instrução de coreografia, aula de canto, participação em programas de variedades e transmissão ao vivo acontecem tudo em coreano. Muitos estrangeiros descrevem o primeiro ano como o mais duro. Quem chega com coreano mais fraco tende a ganhar menos tempo de fala nos programas de variedades, e isso pesa num mercado movido a conteúdo de personalidade.
Depois vem a papelada. Idols estrangeiros que trabalham na Coreia geralmente precisam de um visto de trabalho da área de entretenimento (a categoria E-6 é a padrão para artistas), patrocinado pela empresa e vinculado a ela. Na prática, o direito legal de um estrangeiro morar e trabalhar na Coreia pode depender da relação com a empresa de um jeito que simplesmente não acontece com um integrante coreano.
E algumas diferenças estruturais nunca somem. Idols coreanos homens têm serviço militar obrigatório; os estrangeiros, não, o que altera a linha do tempo de carreira dentro de um mesmo grupo. Os estrangeiros também costumam ser encaixados no papel de "o de fora" no conteúdo do grupo: explicar diferenças culturais, encarar a imprensa internacional. Isso pode ser um trunfo ou um teto.
Onde Entram os Grupos Localizados
Integrantes estrangeiros dentro de grupos coreanos são uma coisa. Grupos totalmente localizados são outra.
O NiziU foi formado pela JYP com a Sony Music no Japão pelo programa de audições Nizi Project e estreou em 2020 com formação inteiramente japonesa. O JO1 saiu do Produce 101 Japan no mesmo ano, e o &TEAM estreou em 2022 pela operação japonesa da HYBE. Os três usam treinamento, coreografia e produção no estilo coreano, mas promovem e lançam principalmente em japonês.
A maioria dos fãs chama esses grupos de J-Pop feito com método de K-Pop, e não de K-Pop propriamente dito. Mas a fronteira é genuinamente nebulosa, e é a existência deles que torna a pergunta do KATSEYE tão difícil: se o método viaja, o que sobra de coreano?
Afinal, o Que Significa o "K" de K-Pop?
Existem três respostas comuns, e nenhuma vence com folga.
- Nacionalidade: K-Pop quer dizer artistas coreanos. Na prática, essa já morreu: ninguém defende a sério que TWICE ou BLACKPINK não são K-Pop.
- Idioma e mercado: K-Pop é música lançada em coreano e promovida pelas emissoras e pelas paradas coreanas. Essa se sustenta melhor, e é mais ou menos assim que as paradas e os music shows funcionam de fato. Também significa que um lançamento em coreano de um grupo multinacional conta, enquanto um lançamento em inglês de um grupo sediado em Los Angeles, não.
- Método: K-Pop é um sistema de produção — formação de trainees, performance com a coreografia no centro, ciclos de comeback, infraestrutura de fandom. É a definição mais inclusiva e a que a estratégia de expansão da indústria endossa nas entrelinhas. É também a que faz "K-Pop" passar a significar algo diferente de "coreano".
Muitos fãs de longa data se incomodam com essa terceira definição, e a preocupação faz sentido: um gênero batizado com o nome de um país, mas desconectado dele, corre o risco de perder o que o tornava distinto. Outros lembram que gêneros pop sempre migraram. O que ninguém contesta é que os integrantes estrangeiros tornaram a pergunta inevitável: cada vocalista japonesa, cada dançarino tailandês e cada rapper que cresceu na Austrália que estreou em Seul empurrou a definição um pouco para longe da geografia e um pouco para perto do ofício.
Acha Que Sabe Todos os Nomes?
Aqui vai um teste honesto de quanta atenção você vem prestando: você consegue identificar idols só pelo rosto, incluindo aqueles cuja nacionalidade surpreende? Um monte de fã coloca com toda a confiança uma pessoa no grupo errado, ou acha que alguém é coreano quando na verdade cresceu em Melbourne, Osaka ou Bangcoc.
Os quizzes de integrantes abaixo cobrem idols de boy groups e girl groups de várias gerações, e o quiz de grupos testa se você consegue ligar uma formação ao nome certo. Comece pelos integrantes: reconhecer um rosto e saber o nome dele são duas habilidades bem diferentes.